Rotina de Vendas

Eu, vendedora?

Sempre fui a agitadora da turma, organizava festinhas na casa de um, nome nas baladas, tinha várias turmas de amigos, me relacionava muito fácil com as pessoas, gostava de fazer amigos, mesmo. Era da turma tudo pela diversão! Foi quando com 20 anos uma amiga me falou de uma vaga de vendedora numa loja bem bacana do shopping. Nunca tinha vendido uma caneta, mas eu adorava a marca, queria levantar um extra e ainda aproveitaria para comprar com desconto. Uhuuuu topei na hora! Seriam somente 45 dias durante o período de natal, pensei: “perfeito, o verão está salvo!”. Estava cursando publicidade e propaganda e vivia com os meus pais, então esse dinheiro era só para a minha diversão.

Todos tinham meta de venda diária, lista de preferência de atendimento e reza forte pra pegar a vez de um cliente bem bom. Sim, o rodízio era grande e o forte das vendas era mais na semana do natal. Bem, fui desafiada com essas tal de metas e na primeira semana não pensei duas vezes, fui correndo na casa da minha vó pra convencer a comprar os presentes de natal de todos os netos na loja que eu trabalhava. Fiz uma pesquisa com duas primas e elas A-M-A-R-A-M a ideia, então parti para a prospecção da minha primeira cliente, a minha avó. Argumentei forte falando da marca, da qualidade das roupas e que havia falado com as minhas primas e elas super adoraram. Pronto, vó Ada abraçou a ideia, não precisaria sair de casa para comprar os presentes dos 14 netos.

Fiquei tão empolgada que já havia atingido 30% da minha meta, que na segunda semana avisei  minhas amigas sobre as novidades da loja e as promoções. Disse para elas levarem suas família, pois  eu estaria esperando por todas. Foi sucesso total: mães, namorados e tias compareceram em peso pra fazer as compras de natal comigo. Cheguei a 60% da meta com essa prospecção.

Como assim, eu vendedora?! Ainda não tinha caído a ficha de como eu estava gostando de prospectar, de atender clientes, me empenhando em bater as metas, vestindo a camiseta de verdade. Mas calma, Mari, você fez ativação, correu atrás e aproveitou os seus relacionamentos para vender mais. E o dia-a-dia, será que eu daria conta de segurar o tranco?

Eis que chega a terceira semana, pré Natal, e a loja estava uma loucura. Roupas empilhadas para todos os lados, provadores com fila e eu enlouquecida subindo e descendo as escadas do estoque. Não tinha tempo nem pra comer, estava, literalmente, bombando de vender. As metas já não eram minha preocupação, mas sim fazer um atendimento com todo o padrão da marca no meio dessa loucura toda.

Enfim, passado o natal e o consumo absurdo das pessoas, chega a semana que os vendedores não curtem muito: troca-troca de presentes. As metas ainda estavam vigorando e eu já era a segunda do ranking dos melhores vendedores do mês. Como estava tranquila em relação aos resultados, fiquei mais dando suporte para os outros vendedores, que também precisavam atingir suas metas. Permaneci no rodízio de atendimento. Nas horas vagas, arrumava a loja. Trocava de roupa a todo momento para despertar o interesse das clientes, pois sempre conseguia vender o que eu estava vestindo.

Na última semana da minha experiência com vendas, estavam todos os vendedores  exaustos da correria do natal. Os potenciais clientes dificilmente efetuavam uma compra, então a tarefa principal dos vendedores era realizar as trocas do Natal.  Eu, tranquilona, estava mais prestativa com os clientes de troca, pois já estava me achando a vendedora (risos). Sempre tive vergonha de trocar presentes  nas lojas por saber que os vendedores não curtiam muito, mas agora como vendedora, me coloquei no lugar dos clientes e os recebi com um sorrisão bem convidativo. Olho pra porta e tem uma menina tímida, loirinha, de óculos, com os cabelos lisos…  me identifiquei muito com ela e fui recebê-la. De tão envergonhada, não conseguia nem olhar nos meus olhos. Puxei um papo para tentar quebrar a barreira inicial, mas sempre tentando deixá-la à vontade. Aos poucos ela foi se soltando, provando as benditas calças, que eu nunca aprendi os termos certos da modelagem, mas improvisei com a minha experiência de ter provado todas no meu corpo.

Uma hora depois, entra na loja uma senhora bem falante e espevitada, procurando a funcionária dela que tinha vindo trocar uma calça. Logo nos achou, mostrei o que havia de mais legal e que eu acreditava combinar com o estilo dela.  Ao final a menina já estava com um sorriso lindo no rosto e feliz da vida com suas quatro calças novas. A menina confessou que amava a loja, mas tinha medo de entrar, pois só tinham vendedoras bonitas e que a olhavam de uma forma que a incomodava. A senhora espevitada, no caso, a tia chefe da menina havia ido até lá para pagar a conta, na verdade era a sobrinha. Quando estava pagando a conta pediu para conversar com a minha gerente. Não entendi, fiquei nervosa e sem saber o que eu havia feito de errado, mas mesmo assim chamei a  gerente.

Em alto tom de voz, a senhora perguntou há quanto tempo eu estava trabalhando na loja. A minha gerente, na mesma hora, virou pra mim com um olhar fulminante querendo perguntar o que eu havia feito de errado. Imediatamente respondeu que eu estava em experiência por 45 dias para dar suporte junto as vendas de Natal e questionou se havia acontecido algo que não tenha agradado. A cliente respondeu – ” Não, muito pelo contrário,  quero dizer que se caso você não queira mais esta vendedora, por favor, mande para minha loja. Tenho uma rede com seis óticas e confesso que nunca fui tão bem atendida nesta loja como com ela (eu!!). Ensine para suas vendedoras não nos olharem de cima abaixo como se estivesse julgando se temos ou não dinheiro pra comprar. Minha vendedora sempre quis comprar aqui mas nunca se sentiu bem quando passava aqui na frente. Pense em treinar melhor sua equipe nesse sentido. E estou falando sério, eu quero a Mariana na minha loja! ” .

Neste momento meu mundo parou, meu peito estufou e um sorriso de orelha a orelha estampou o meu rosto. Juro, não acreditei que as palavras de um cliente seriam tão marcantes e importante para o meu desenvolvimento profissional. Aprendi ali o verdadeiro valor, sentido e diferencial de um bom profissional de vendas. Que experiência! Abriu uma janela enorme com um direcionamento para minha carreira. Havia acabado de trocar minha faculdade de jornalismo para publicidade. Penúltimo ano para me formar. Estava analisando, dentro da profissão, qual seria o meu melhor papel e, com isso, descobri que o mosquitinho das vendas me atingiu em cheio. E esse seria o meu melhor papel dentro de tudo que já pude experimentar.

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